Revolução na prevenção ao HIV esbarra em preços altos e queda no financiamento

Novos tratamentos capazes de prevenir quase 100% das infecções representam um avanço histórico, mas especialistas alertam que o alto custo e a redução do financiamento internacional podem comprometer o combate ao HIV
Por Paloma de Sá | GNEWSUSA

Uma nova geração de medicamentos está transformando a prevenção ao HIV e alimentando a esperança de controlar a epidemia de Aids nas próximas décadas. No entanto, o acesso desigual a essas tecnologias e a queda do financiamento global para programas de prevenção e tratamento colocam esse avanço em risco. O alerta foi feito durante a abertura da 26ª Conferência Internacional de Aids, realizada no Rio de Janeiro, onde especialistas, pesquisadores e representantes internacionais defenderam medidas urgentes para ampliar o acesso aos medicamentos e evitar um possível recrudescimento da epidemia.

Ciência avança, mas acesso continua desigual

Os avanços científicos apresentados durante a conferência demonstram que a prevenção do HIV vive um de seus momentos mais promissores. Entre as principais novidades está o lenacapavir, um medicamento injetável de longa duração que, segundo estudos clínicos recentes, oferece proteção próxima de 100% contra a infecção pelo HIV quando utilizado corretamente.

O diferencial do tratamento é a praticidade: são necessárias apenas duas aplicações por ano, reduzindo significativamente a dependência do uso diário de medicamentos preventivos e aumentando a adesão de pessoas com maior risco de exposição ao vírus.

Apesar dos resultados considerados revolucionários, especialistas alertam que o benefício ainda está longe de alcançar quem mais precisa.

Alto preço limita acesso

Um dos principais obstáculos apontados durante a conferência é o custo do medicamento patenteado.

Segundo representantes da Associação Brasileira Interdisciplinar de Aids (Abia), o preço internacional do lenacapavir ultrapassa US$ 20 mil por paciente ao ano, valor considerado inviável para a incorporação em larga escala por sistemas públicos de saúde.

Estudo realizado pelo Grupo de Trabalho sobre Propriedade Intelectual (GTPI), coordenado pela Abia, indica que o Brasil teria capacidade técnica para produzir versões genéricas do medicamento por aproximadamente R$ 372 por paciente ao ano, reduzindo drasticamente os custos.

No entanto, o país ficou de fora da lista de nações autorizadas pelas detentoras da patente a fabricar versões genéricas, situação que, segundo organizações da sociedade civil, amplia as desigualdades no acesso à inovação.

“Inovação sem acesso é injustiça”

Durante a conferência, representantes do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Unaids) defenderam que os avanços científicos só terão impacto real se chegarem às populações mais vulneráveis.

A diretora-executiva do Unaids, Winnie Byanyima, afirmou que desenvolver novos medicamentos não é suficiente quando milhões de pessoas permanecem sem acesso ao tratamento.

Segundo ela, o verdadeiro sucesso será alcançado apenas quando essas tecnologias estiverem disponíveis para todos que necessitam delas, independentemente da renda ou do país onde vivem.

A estimativa da agência é que 20 milhões de pessoas precisem ter acesso às novas estratégias de prevenção medicamentosa para produzir impacto significativo na redução das novas infecções.

Financiamento global preocupa especialistas

Além da dificuldade de acesso aos novos medicamentos, outro fator preocupa organizações internacionais: a redução dos investimentos destinados ao enfrentamento do HIV.

O relatório divulgado durante a conferência mostra que o financiamento internacional para programas relacionados ao HIV caiu US$ 1,5 bilhão entre 2024 e 2025, representando uma redução de 18%, o menor nível registrado em quase duas décadas.

No mesmo período, a ajuda internacional ao desenvolvimento sofreu queda de 23%, considerada a maior já registrada, afetando diretamente programas de saúde em diversos países.

Especialistas alertam que a combinação entre menos recursos financeiros e acesso limitado às novas tecnologias pode comprometer décadas de avanços obtidos no combate à epidemia.

Risco para serviços comunitários

Grande parte da resposta ao HIV depende de organizações comunitárias que atuam junto às populações mais vulneráveis.

Essas instituições desempenham papel fundamental na distribuição de preservativos, realização de testes rápidos, orientação sobre prevenção, encaminhamento ao tratamento e combate ao preconceito.

Dados apresentados pelo Unaids mostram que essas organizações receberam cerca de 25% da assistência internacional destinada ao HIV em 2024 e, em alguns países, conseguiram alcançar até 60% das populações mais vulneráveis com serviços essenciais.

Sem financiamento adequado, especialistas alertam que muitos desses programas correm risco de interrupção.

Populações mais vulneráveis seguem enfrentando barreiras

O relatório também destaca que determinados grupos continuam apresentando maior vulnerabilidade à infecção pelo HIV, entre eles:

  • pessoas que utilizam drogas injetáveis;

  • homens que fazem sexo com homens;

  • mulheres trans;

  • profissionais do sexo.

Segundo o Unaids, a criminalização dessas populações em diversos países dificulta o acesso aos serviços de saúde, amplia o estigma e reduz a eficácia das estratégias de prevenção.

Atualmente, dezenas de países ainda mantêm legislações que criminalizam relações entre pessoas do mesmo sexo, o trabalho sexual, o uso de drogas e pessoas trans, criando obstáculos adicionais ao controle da epidemia.

Números mostram que o desafio permanece

Embora os avanços científicos tenham reduzido significativamente as mortes e as novas infecções nas últimas décadas, o HIV continua sendo um importante desafio de saúde pública.

Os dados mais recentes do Unaids mostram que, em 2025:

  • 1,2 milhão de pessoas adquiriram HIV;

  • 570 mil morreram em decorrência da Aids;

  • 22% das pessoas vivendo com HIV ainda não recebem tratamento;

  • 20 milhões de pessoas precisam ter acesso às novas formas de prevenção medicamentosa para que a resposta global seja efetiva.

O futuro depende de acesso e investimento

Especialistas reunidos na Conferência Internacional de Aids afirmam que a humanidade possui hoje ferramentas capazes de mudar o rumo da epidemia. Entretanto, transformar esse potencial em resultados concretos dependerá da ampliação do acesso aos medicamentos, da redução de seus custos e do fortalecimento dos investimentos em programas de prevenção, diagnóstico e tratamento.

Sem essas medidas, alertam os pesquisadores, a revolução científica poderá beneficiar apenas uma parcela da população, deixando milhões de pessoas vulneráveis à infecção e comprometendo a meta global de acabar com a Aids como ameaça à saúde pública.

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